Tratamento Imunológico (6)

6) Aloímunídade

Sabe-se que os genes HLA (Antígenos Leucocitários Humano) desempenham um importante papel no mecanismo de rejeição a tecidos transplantados, de forma que é razoável concluir que também são importantes na modulação e indução da tolerância materna durante a gestação.

O reconhecimento materno de antígenos fetais de origem paterna não apenas ocorre durante a gestação normal, mas pode ser benéfica. Evidências clínicas a favor da van-tagem da diferença antigênica entre mãe e feto incluem as altas taxas de gestação relatadas em gestações em úteros de aluguel, envolvendo a transferência de embriões alo-geneticamente diferentes tanto em relação aos antígenos paternos como maternos. Estudos em animais mostraram que genes na região do MHC desempenham um importan¬te papel na reprodução, com efeitos sobre a implantação, sobrevivência e crescimento da gestação.

O reconhecimento de células estranhas ao organismo pelo sistema imunológico ocorre devido à expressão de moléculas MHC na superfície celular. Células do citotro-foblasto extra-viloso fetal não expressam as moléculas clássicas do MHC classe l (HLA-A e HLA-B), estando as moléculas MHC classe II também ausentes. Ocorre, ao
invés, a expressão de moléculas HLA-G e E e uma baixa expressão de HLA-C. Diferentemente do que ocorre com os outros genes HLA, para o HLA-G existe uma ausência quase completa de polimorfismo da sequência de nucleo-tídeos, o que significa que a proteína HLA-G praticamente não varia em humanos, o que explica o não reconhecimento das células trofoblástica como estranhas. Por outro lado, a incapacidade de expressão de moléculas MHC classe l pela célula trofoblástica poderia torná-la vulnerável ao ataque por células NK. Foi demonstrado que os antígenos HLA-G protegem as células da lise mediada pela atividade NK. Apesar da quase total ausência de polimorfismo anteriormente relatada, estudos recentes têm demonstrado uma associação de alguns polimorfismos do HLA-G com abortamento de repetição, existindo suficiente variação no sistema HLA que permite que a identidade imunológica seja específica para cada indivíduo.

Mesmo com a ausência da expressão de moléculas MHC clássicas na interface materno-fetal, a exposição materna a antígenos fetais certamente ocorre, seja pela liberação de células fetais para a circulação materna ou por outros mecanismos. Já foi relatado que uma gestação a termo ou um abortamento podem sensibilizar a mãe a antígenos HLA de origem paterna, mas a presença de tais antígenos não está relacionada a complicações da gravidez e perdas fetais. Acredita-se que a expressão de antígenos paternos permite que o feto seja reconhecido como estranho pelo sistema imune materno e este tipo de reconhecimento é benéfico para a sobrevivência do embrião.

Os linfócitos B são os responsáveis pela produção dos anticorpos, produzindo anticorpos antilinfócitos paternos (APLA) contra o HLA paterno quando a mulher engravida, sendo que estes anticorpos teriam o objetivo de proteger o feto do ataque imunológico pelas células NK maternas.

Foi observado que casais com história de AR apresentam uma certa compatibilidade de HLA, principalmente nos loci B, DQ e DR. Mulheres multíparas em geral apre-sentam APLA na circulação que podem ser eventualmente detectados até mesmo fora do período gravídico, enquanto que as abortadoras habituais apresentam níveis baixos ou indetectáveis. Existem diferentes métodos para a detecção dos APLA no soro materno, tais como a microlinfocitoto-xicidade e a citometria de fluxo, sendo somente o último o indicado para a avaliação na área de reprodução. Para explicar o possível papel do HLA no processo reprodutivo, além do mecanismo imunológico, existe a teoria genética, pela qual genes teriam influência sobre o desenvolvimento fetal, especialmente aqueles ligados ao MHC.

Para estudar a importância da compatibilidade HLA sobre a evolução da gestação, Ober e cols estudaram prospectivamente a evolução das gestações durante 10 anos em uma população submetida a tipagem de HLA. Encontraram um significativo aumento de perdas fetais em casais que apresentavam compatibilidade de todos os 16 loci estudados. Em relação a loci individuais, as taxas de perda foram maiores para compatibilidade de HLA-B, HLA-C e o componente do complemento C4. Este estudo também mostrou que casais com compatiblilidade HLA apresentavam maiores intervalos inter-partos, o que poderia ser explicado por uma maior incidência de abortamentos precoces não diagnosticados. Este fato também poderia ocorrer em casos de infertilidade sem causa aparente e em falhas repetidas de tratamentos de FIV. Existem poucos estudos em relação ao comportamento do HLA em casos de falhas repetidas de FIV. Estudos distintos observaram uma maior prevalência de compatibilidade HLA em casais com história de infertilidade sem causa aparente que foram submetidos a FIV sem sucesso. De qualquer forma, nenhum deles identificou algum antígeno específico do HLA associado com falha de implantação após a transferência embrionária. Assim sendo, o HLA pode ser apenas um marcador para a compatibilidade de genes relacionados ou defeituosos.

O tratamento da infertilidade decorrente de compatibilidade HLA envolve a imunização materna com concentrados de linfócitos paternos, de forma que o sinal seja amplificado cerca de 10000 vezes quando comparado ao nível normalmente encontrado na gestação inicial. A imunização com linfócitos paternos (PLI) consiste de vacinas que são aplicadas com intervalos médios de 4 semanas, sendo que 4 semanas após a segunda dose o nível de APLA é novamente medido. É importante frisar que tal modalidade terapêutica apresenta riscos possíveis de transmissão de doenças infecto-contagiosas, o que torna obrigatório um perfil sorológico prévio paterno, incluindo sorologias para HIV, hepatite B e C, HTLV-1 e 2, sífilis e doença de Chagas. Em raros casos, pode haver, ainda, desenvolvimento de celulite no local da aplicação.

Próxima Página

Clínica Fertilis - Rua Antônio Soares, 232 - Sorocaba-SP - CEP: 18017-186 - Brasil - Fone/Fax: +55(15) 3233-0708