Tratamento Imunológico (3)

3) AAF e esterilidade: a importância para a Reprodução Assistida

A associação entre anticorpos antifosfolípides e abortamentos de repetição já foi, portanto, documentada em muitos estudos. A presença de tais anticorpos, entretanto, em pacientes com diagnóstico de esterilidade e que buscam serviços para tratamentos de reprodução assistida não está bem estabelecida. Enquanto alguns autores de-fendem que as taxas de gestação são iguais entre pacientes com testes positivos e com testes negativos para anticorpos antifosfolípides, outros afirmam que abortamentos muito precoces ou falhos de implantação em ciclos de FIV podem estar relacionados aos mesmos mecanismos fisio-patológicos que causam os abortamentos de repetição, fazendo com que tais pacientes recebam o diagnóstico incorreto de esterilidade.

As discrepâncias encontradas em diferentes estudos podem ser decorrentes dos diferentes métodos utilizados para a detecção dos anticorpos antifosfolípides. Apenas para exemplificar, a maioria dos estudos até agora publicados baseia-se na detecção apenas dos auto-anticorpos anticardiolipina e anticoagulante lúpico, quando hoje já se sabe que outros podem desempenhar um papel tão ou até mais importante na fisiopatologia da infertilidade, tais como o antifosfatidilserina e o antifosfatidiletanolamina. Além disso, muitos estudos consideram apenas a detecção de l g M e IgG, quando sabe-se que a IgA também pode estar implicada.

Em termos fisiopatológicos, foi demonstrado que a ligação do antifosfatidilserina ao trofoblasto afeta o mecanismo de invasão e diferenciação do cito em sinciciotrofo-blasto, prejudicando, ainda, a produção de gonadotrofina coriônica. Tais efeitos, ainda, parecem ocorrer de forma dose dependente, ou seja, títulos mais altos dos anticorpos levam as ações mais pronunciadas. A administração de heparina de baixo peso molecular é capaz de inibir a ligação do anticorpo antifosfatidilserina ao trofoblasto, também de forma dose-dependente. Acredita-se que tal fenómeno seja devido ao fato de alguns anticorpos antifosfolípides se ligarem à heparina com uma afinidade extremamente alta.

Estudos recentes puderam demonstrar ainda, que a exposição de culturas de trofoblasto a anticorpos antifosfolípides levam a alterações da transcrição e tradução de cer¬tas moléculas de adesão. Por exemplo, integrinas (alfa-1 e alfa-5) e caderinas (VÊ, E) necessárias para uma implantação e vascularização eficazes tiveram sua expressão modificada. Portanto, a alteração da expressão de moléculas de superfície do trofoblasto por anticorpos antifosfolípides pode resultar em implantação do trofoblasto debilitada ou completamente ineficiente.

Recentemente, mostrou-se que o tratamento destes casos com heparina e aspirina reduz a incidência de abortamentos de repetição em 54%.

Portanto, com base no que já foi publicado na literatura especializada, tanto os anticorpos anticardiolipina quantos os antifosfatidilserina podem estar relacionados com falhas de implantação. Entretanto, há indícios de que pode ocorrer reação cruzada entre estes dois anticorpos em alguns testes, o que permite especular se alguns casos considerados positivos para o anticardiolipina seriam, na verdade, positivos para o antifosfatidilserina.

Há evidências cada vez maiores do efeito patológico do antifosfatidilserina sobre o trofoblasto, como já foi descrito. Quanto ao antifosfatidiletanolamina, há poucos estudos disponíveis para que seja evidenciado seu real efeito sobre o desenvolvimento embrionário em humanos. Acredita-se, no entanto, que o antifosfatidiletanolamina esteja também associado com perda embrionária precoce, estando possivelmente implicado de forma importante no processo de divisão celular.

Próxima Página

Clínica Fertilis - Rua Antônio Soares, 232 - Sorocaba-SP - CEP: 18017-186 - Brasil - Fone/Fax: +55(15) 3233-0708