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Um história médica de

 

A história que vou contar a seguir é verídica e começou no ano de 1996, com uma cliente em meu consultório. Por motivos de ética profissional não serão citados os nomes verdadeiros dos personagens da história.



A paciente Marisa, procurou nos para resolver o problema de infertilidade do casal. No dia da consulta inicial, a paciente veio acompanhada da mãe, pois ela, apesar de ser de Sorocaba, morava com o marido numa cidade em outro estado (MG).

 

Ao sair da clínica, naquele fim de tarde, me deparei com um acidente ocorrido momentos antes, a poucos metros da clínica, e ao passar pelo local vi que a paciente estava envolvida. Um caminhão descia a avenida, em alta velocidade, carregado de galhos de arvore quando um dos galhos se desprendeu e voou sobre o carro de Marisa que estava parado na transversal. Felizmente constatamos que ninguém havia se machucado.



Passado o susto, Marisa, já com seu marido, retornou a clínica para saber os resultados dos exames laboratoriais e foi indicado o tratamento com "Fertilização In Vitro" (Bebe de Proveta) devido aos problemas do casal (problema nas trompas da esposa e na qualidade de sêmen do marido).



O tratamento iniciou-se sem problemas e os óvulos foram coletados sem problemas, mas o marido não conseguia coletar a amostra de sêmen. Tentou durante todo o dia, sozinho e com a esposa, fora da clínica (motel) e quando tudo parecia que ia se perder, o marido nos referiu que estava extremamente ansioso e se ao menos tivesse uma ereção ele conseguiria coletar a amostra do sêmen.

 

Sabendo disso aplicamos uma dose de Papaverina (uma droga vasodilatadora utilizada no tratamento de impotência) no pênis, e ele conseguiu ter a ereção e colher o material.

 

Por ter passado do tempo de colocação dos espermatozóides junto dos óvulos eu imaginava que aquele caso tinha tudo para não dar certo. No dia seguinte, durante a manipulação dos embriões no laboratório, uma peça do microscópio se desprendeu e por pouco não atingiu os embriões. Por fim, no dia da transferência dos embriões (reposição no Útero), houve uma grande dificuldade para passar o cateter, mas finalmente conseguimos transferi-los.



Tudo isso conspirava para o insucesso do tratamento e naquele momento pensei que as chances dela de conseguir a gravidez, eram mínimas, mas para minha surpresa, doze dias depois, constatamos que ela estava grávida. No final do primeiro mês verificamos que era uma gravidez única, com feto vivo e com batimentos cardíacos fetais presentes, até então sem problemas.



No inicio do segundo mês de gravidez, Marisa me ligou dizendo estar com uma hemorragia profusa chegando a molhar sua roupa e a cama. Nesse momento pedi que ela tomasse as providências de praxe, com medicações e repouso absoluto até podermos fazer um exame com ultra-som, para verificar a extensão do problema. Naquele momento me passou pela idéia a possibilidade de ser um início de abortamento.



O exame de Ultra-sonografia mostrou, para meu espanto, que apesar do enorme sangramento, o feto continuava vivo e sem sinais de alteração.



A paciente retornou para sua cidade onde iniciou o pré natal com um médico conhecido da família, e nos exames seguintes ficou sabendo que esperava uma menina.



A gravidez se encaminhou normalmente até o sétimo mês, quando na passagem de ano, recebi um telefonema urgente de parentes de Marisa me informando que ela estava internada em sua cidade com diagnóstico de Leucemia Mielóide Aguda (um tipo de câncer do sangue), e a beira da morte.

 

Os dados laboratoriais passados pelo colega da cidade demonstravam que o caso era gravíssimo. A cidade não tinha recursos, como banco de sangue, e o médico, que já havia atendido a uma prima de Marisa com o mesmo problema, e que veio a falecer em dois dias, chegou a desenganar a família.

 

Orientei a família a conseguir um pouco de sangue nas cidades vizinhas e trazer a paciente o mais rápido possível para Sorocaba, onde teria mais recursos para o pronto atendimento.

 

O médico, temendo pela morte de Marisa, já que o quadro de sua prima tinha sido fulminante, ainda falou para o marido para ele se preparar para voltar para casa sem a esposa e a filha.



Com muito custo a família conseguiu transportar a paciente até Sorocaba, e suas condições melhoraram um pouco com as transfusões. Após os exames foi confirmado o diagnóstico de Leucemia Mielóide Aguda (Um tipo de câncer do sangue de prognóstico péssimo), e a família foi mais uma vez desenganada pelos médicos.

 

Mais uma vez as palavras do médico foram duras demais para a família e mais uma vez me procuraram. O médico que a atendeu falou para a família, que eles podiam levá-la para casa ou deixá-la no hospital porque ela teria apenas três dias de vida.



Entrei então em contato com um colega do Hospital Albert Einstein de São Paulo, que me disse para transferi-la para lá o mais depressa possível para que eles pudessem tentar fazer o tratamento, ou pelo menos tentar salvar a criança. O mesmo médico me tranqüilizou um pouco após me contar que teve um caso parecido em sua própria família, com resultado excelente.



A paciente então foi transferida para São Paulo onde iniciou o tratamento com quimioterapia.



Até então a paciente nada sabia sobre seu quadro clínico, pois seus familiares lhe falavam que ela estaria tendo uma anemia agravada pela gravidez.



Em momento algum ela perdeu a esperança na vida, e a fé em Deus, mantendo sempre consigo o seu terço , e tendo a compania de seus familiares. Apesar de todo o desespero de seus familiares , ela parecia ser a mais lúcida mantendo uma fé inabalável em sua cura. Também não perdia a chance de fazer piadas com seu próprio estado, zombando até da peruca que passaria a usar, ou da imensa vontade de comer pizza, o que algum tempo depois foi liberado sem restrições, a as tais pizzas eram entregues diretamente em seu quarto no hospital.



Após duas sessões de quimioterapia houve uma grande melhora no quadro clínico, com regressão do processo, e a criança evoluiu normalmente durante esse período mesmo com a quimioterapia, não apresentando qualquer sinal de anormalidade. Esse mesmo colega de São Paulo, solicitou-me que indicasse um Obstetra que pudesse acompanhar a gravidez durante a internação. Um médico amigo foi indicado e acompanhou a gravidez durante o tempo de internação.

 

Tanto a evolução da Leucemia como da gravidez foram muito satisfatórias, e em 2 meses a paciente teve alta do hospital podendo viajar e terminar o seu tratamento em Sorocaba, onde iria fazer as outras sessões de quimioterapia. Nessa época já apresentava as seqüelas da quimioterapia perdendo todos os pelos do corpo.



Aqui na cidade, ela passou a ser acompanhada por um Hematologista orientado pelos médicos de São Paulo, e também passou a ser acompanhada por um Obstetra de minha confiança.



Já em Sorocaba passou por mais duas sessões de quimioterapia e em maio de 1997 nascia uma linda menina , com 3100 gr e 48 cm de comprimento, com o nome de Esperança.



No dia em que soube do início do trabalho de parto, o pai, ainda trabalhando em sua cidade, e com o carro na oficina devido a um acidente de transito, trocou um computador de sua loja pela motocicleta de um amigo (uma CG 125), e veio de moto até Sorocaba viajando a noite por mais de 700 Km, sob frio e chuva.



Tanto a evolução da criança como da mãe após o parto foram excelentes, e após pesquisa na família, verificou-se que outras três pessoas já tinham apresentado problema semelhante.



A criança não teve qualquer problema de saúde, e apesar de os exames laboratoriais mostrarem a regressão quase total da doença na mãe, foi indicado o transplante de medula, o qual foi realizado no mesmo hospital em que ela e sua filha foram atendidas em São Paulo.



Como o destino dá muitas voltas e prega peças inesperadas na gente, ela se separou do marido recentemente e trilhava o caminho de lutar pela vida e criar sua filha com a ajuda dos pais, mas sem nunca perder, mesmo que por um minuto, sua fé inabalável em Deus com a certeza de vencer todos os obstáculos de sua vida.



Até que então fiquei sabendo por intermédio de seu pai que ela estava novamente internada pois os sintomas retornaram mesmo tendo feito o transplante de medula. Seu pai me pediu encarecidamente para que a visitasse pois ela gostava e depositava uma enorme confiança em mim.



Fui visitá-la e percebi que desta vez ela estava diferente como que cansada para lutar novamente e ela me disse que havia pedido para os pais cuidarem de sua filha pois ela não sabia se dessa vez retornaria.



Depois disso não a vi mais mas procurava saber de seu estado através de colegas.



Em maio de 1999 estava em um congresso na Bahia com especialistas do Brasil todo e me encontrei com o colega obstetra que havia cuidado de Marisa em São Paulo e lhe contei que ela havia feito o transplante e que estava tendo problemas com o retorno dos sintomas.



Retornei a São Paulo e depois fui para Sorocaba na semana seguinte. Na sexta-feira peguei o jornal de quinta-feira e tive a triste surpresa de ver na sessão funerária o convite para a missa de sétimo dia de seu falecimento. Normalmente nós médicos procuramos nos manter frios e distantes desses acontecimentos mas uma tristeza invadiu a nossa casa.



Mais tarde vim a saber que ela faleceu na noite do dia 6 de maio, noite essa em que eu havia comentado sobre ela com meu colega e o dia em que sua querida filha fazia exatos dois anos de vida.

 

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